sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A viagem do pensamento

A Viagem do Pensamento 

Andei muito de ônibus.

Acredito que passei metade da minha vida dentro de um ônibus, trajetos cíclicos que repetiam-se diária, semanal e mensalmente. Por raras ocasiões, ônibus me levaram para destinos de festa, excursões ou qualquer outra forma de diversão. O ônibus pra mim representou na sua esmagadora maioria, o deslocamento para o trabalho ou para reencontrar pessoas queridas e distantes geograficamente.

Hoje avalio que sempre busquei o que estava distante de mim, sejam nas oportunidades profissionais, ou nas pessoas que reencontrava distantes. Deixei a casa de meus pais aos 14 - 15 anos de idade, retornando ciclicamente, de forma semanal, optando por trabalhar onde as oportunidades me soassem mais aprazíveis ao conhecimento e o auto-conhecimento em detrimento ao privilégio de um deslocamento agradável e simples que demandasse alguns passos ou pedaladas.


Nunca dormi num ônibus.

Por alguma neuro programação inexplicável, eu nunca consegui dormir num ônibus, mesmo em viagens noturnas interestaduais, eu sempre vidrei os olhos e tinha a mente acelerando os pensamento, seja na antecipação do que me aguardava naquele ponto futuro de chegada, seja nas análises perdidas que fazia com os silogismos que a razão me apresentava.


Dentro do Capacete.

Hoje eu penso em fazer um trabalho profissional de tratar assuntos que pensamos enquanto pilotamos nossos veículos antigos, nossas motocicletas, levando o tempo para dentro do capacete, uma avaliação sobre tudo que pensamos quando estamos sozinhos, quando estamos, como em um ônibus, com o tempo ao nosso lado, companheiro inexorável que nos permite avaliações, conjecturas que o espaço ao nosso redor, nos permite tudo sem censora ou restrições.

Prisões sociais.

Somos processadores de grandes volumes de dados, uma máquina que mesmo a IA mais avançada ainda não consegue de forma completa, aproximar-se porém, a nossa realidade de consumo de informação nos limita, e isso se percebe pelas "trends" que nos estimulam a pensar massivamente em dois pontos específicos que se confrontam, se opõe a cada comentário, a cada nova postagem e, hoje, vejo as redes sociais - redes neurais intangíveis da sociedade - como um perigoso ringue que insiste em nos antepor a um adversário de ideias. Desde que paramos de criar grupos para evoluir no pensamento, vejo apenas, grupos que, como uma milícia disfarçada, organizam-se para oporem-se a outra ideologia que difere de suas certezas morais, sociais ou intrínsecas em um interesse comum.

Uma viagem sem fim.

Enquanto isso, eu sigo dentro de um ônibus virtual com os meus pensamentos que voam mais rápido do que os meus olhos a vagar pelas janelas embaçadas dos coletivos sociais.

Eu ainda ando de ônibus.

Abstrato.  

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