quarta-feira, 30 de julho de 2014

Termômetro inexorável

Sempre disse que lágrimas são o termômetro de qualquer sentimento puro.
Quando no teatro via brilharem os rostos, os olhos brilhantes e uma expressão - nos mais "fortes" - denotava o esforço para conter-se. Sabia: a cena alcançou a sua intensão por completo, pois houvera tocado aqueles a quem se destinava. No ápice do sentimento que expressa o contexto, sempre há, quando bem estruturada a cena, o momento em que a platéia remexe-se na cadeira em busca de conforto, buscando segurar-se ou ainda, buscar apego a quem esteja ao seu lado... é melhor contabilizar que, temos um mero instante de sucesso, uma oportunidade de deixar delicadamente uma flor sobre a dor que cada um guarda.

Tenho comigo que uma lágrima, se forma expondo uma dor guardada -oculta- pois temos nossas memórias e, aquelas doloridas, são justamente estas que menos tentamos acessar, evitando assim a dor e a lembrança que a devastação do passado causa. Normalmente armazenadas no subconsciente, (teoria minha sem embasamento técnico, portanto, não utilizem essa na escola!) as passagens tristes ou de extrema felicidade ficam armazenadas em nosso subconsciente e habitam os momentos mais extremos, grifados no livro dos dias. No baú da lembranças, fechado a cadeado da proteção que criamos para não consternar a cada momento, mofam as passagens que nos causam dor e medo e assim, conclui-se não haver nada menos do que sentimento na seiva salobra e cáustica que verte dos olhos.

Assim colocado o pressuposto de uma oportunidade para reavaliar os nossos erros, momentos difíceis, dificuldade em expor o amor ou o apreço por alguém querido, sempre haverá um modelo tal que, por uma mensagem subliminar qual nos remeta a uma lembrança... neste momento, como uma erupção, virão as ondas salsas delatar que algo mais profundo fora tocado. Alguns, claro, com mais facilidade, pela característica de serdes mais franco ou ainda, sincero, outros mais reservados, resguardados pelo envólucro do medo ou da vergonha social de tão puro ato.

Enfim, a desviar-me do que pressupõe o motivo de escrever, sim, falando ainda de despedidas, elas que deixam as pessoas sozinhas, deixam lugar vazio, causam novamente uma sensação de dor... nem sempre através do mesmo veículo que trazemos notícias desta natureza, por vezes, isso ocorre por via de uma ação simples de distanciamento, e, percebemos de maneira discreta como os sujeitos da análise, distanciam-se e acabam por nos deixar, permitindo ser menor o impacto do sentimento, mas sem a capacidade de ignorá-lo ou evitar que ocorra. O velho sentimento de dor... e virão lágrimas novamente...

Inexorável sim, como no título desta, são elas que, desde que há registro na história da humanidade, estiveram presentes, por vezes decisivas na tomada de decisão, na piedade e no perdão. Assim como causaram comoção geral, criaram limites distintos do que já havia sido pensado pela formalização de um meio normal de dissertação mecânica. E estamos novamente diante da análise do que nos configura a despedida, a dor e tudo que deixa obscuro e impróprio por natureza e a partir deste caminho, vamos nos colocar como analistas não operativos desta consequência.

Porém não são apenas tristes as erupções lacrimais, podem até mesmo serem mais conhecidas como, mas, na felicidade extrema, na surpresa e fúria, são elas as protagonistas que se fazem ativas, seja emparceirada a um sorriso, um rosto rugoso pelo ódio ou ao ranger dos dentes... aljôfas se parecem no semblante mais delírico sem aspas para a expressão e são sempre assim: extremas e conclusivas, nos levam à perda do controle de nosso semblante normal, a eliminação do polimento e a cautela, no claustrofóbico cubículo social, ascende as luzes da transparência e externação de um sentimento.

Das despedidas, temos ainda o subterfúgio, a fuga, a utilização do bode espiatório que divida o peso da responsabilidade pelo abandono, pela partida antecipada, da maneira como abordar o anfitrião para chegar a um adeus, pelo fato de que, de uma forma ou de outra, estaremos sempre buscando alternativas de como não causar ferimentos... 

E desta oscilação dos temas, descostura-se o texto no formato de pequenas análises flutuantes, mas desfeita e confusa, afinal, quem conhece os sentimentos? Qual seria capaz de dissertar sobre todas as faces de um bojo lacrimal que brilhante esboça uma maneira conclusiva de sensação. Se choras, vive, sente e ama. Se despede-se, volta, e, ao mesmo tempo, parte ao encontro de outra pessoa.

E mais uma vez despeço-me, para uma nova publicação, que tornar-se-á velha em questão de minutos ao passo que durar esta leitura...




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